Preciso de férias das férias!

O regresso de férias pode ser traumático. As férias também. A verdade é que passamos meses a ansiar por aqueles dias de paragem, de mudança de ares, de ausência de rotinas, de momentos em família…e depois tudo se concretiza…e não é nada do que antecipámos!

Os dias de planeamento das férias podem ser estimulantes, mas cedo se instala o stress da preparação das malas, documentos para a viagem, organização de transporte, o lembrar da medicação dos que têm doença crónica ou os brinquedos especiais sem os quais os filhos não dormem. E, se há animais que deixamos em casa, o stress de os deixar cuidados ou entregues a quem se encarregue deles.

Depois chega o primeiro dia: Ah, aquela doce sensação de liberdade inquinada pela ansiedade de não se ter esquecido de nada e, sobretudo, de não ser o causador de uma nova série do “Sozinho em casa” versão férias de verão! A chegada ao aeroporto, a longa viagem até ao destino, todos aqueles contratempos irritantes que surgem até à chegada ao alojamento, o instalar-se, desfazer as malas e tentar manter o espírito de “não me vou stressar; estou de férias”. Que stressante!!!!

As férias em família podem ser realmente desafiantes

As férias em família podem ser realmente desafiantes

As fotos que tiramos e postamos nas Redes Sociais são magníficas e mostram uma família linda e feliz no gozo merecido das suas férias. A realidade, essa, todos a conhecemos: não está em causa se gostamos ou não da nossa família; o que está em causa é que um ano inteiro a partilhar uma casa à hora de jantar, noite e, às vezes, ao pequeno almoço, é bastante diferente de estarmos 24h/24h juntos. E isto tanto é válido para adultos como para crianças. Nos primeiros dias a alteração de rotinas altera também ritmos de sono. Tudo bem, estamos de férias. A alteração de hábitos alimentares pode ter repercussões no nosso apetite. Tudo bem, estamos de férias. Mas lá pelo 3º ou 4º dia já não está nada bem. Sentimos falta das nossas rotinas, do tempo organizado em tarefas regulares, dos amigos ou colegas. Para muitos, adultos ou crianças, estar tanto tempo desocupado gera descompensação e isto porque simplesmente o trabalho ou a escola nos envolve durante tantas horas por dia que já nem sabemos o que é estar sem nada para fazer. Por isso, quando estamos sem nada para fazer, ficamos desorientados e isso gera stress.

Depois, o facto da família não estar habituada a estar tanto tempo junta, traz novos desafios: a convivência nem sempre é tão pacífica como se esperava. Se os filhos são pequenos, exigem atenção e interação constante de pais cansados que só querem estar quietos e sossegados. Se os filhos são adolescentes, emergem os tão conhecidos conflitos de gerações sempre que há escolhas a fazer: os pais querem ir para um lado e eles para outro, o que nem sempre é possível. E assim se gera mais stress, numa altura em que o mais que se queria era tranquilidade, descontração e divertimento. Claro que também há lugar para esses momentos agradáveis, mas acabamos sempre por deixar prevalecer a memória dos momentos stressantes.

Lá pelo 5º dia, começamos a gozar as férias

Quando começamos a desfrutar das férias, surge o stress do regresso

Lá pelo 5º dia, começamos a desfrutar das férias. Conseguimos gerir mais ou menos bem a convivência familiar, as novas rotinas (ou falta delas), e até já conseguimos ocupar o nosso tempo com atividades prazenteiras. Eis senão quando…é tempo de preparar o regresso a casa! Sim, isso mesmo: mais stress! Todo o corrupio de preparação de viagens como na ida, mais o stress da antecipação do regresso ao trabalho! E o regresso à escola? Comprar o material escolar…tratar dos livros… e as turmas?…e os horários?…os transportes? Stress mais stress mais stress. Às tantas já pensamos que nem valia a pena ter saído de casa! Mas não é verdade. O nosso cérebro é que tem esta tendência a exagerar o negativo e relativizar o positivo. Se realmente conseguíssemos ser objetivos na nossa avaliação, veríamos que sim, houve momentos stressantes, mas muitos foram de descanso e lazer. Que sim, carregámos baterias, embora o dia do regresso seja bastante cansativo. Depois da satisfação de voltar a nossa casa, ficamos a ver com saudade as fotos de férias: isso significa que foram agradáveis e deixaram boas recordações. Se assim não fosse, porque quereríamos voltar no próximo ano?

A Síndrome Pós-Férias

Não é um diagnóstico cientificamente estabelecido, mas antes um conjunto de sintomas descritos desde 1955 e associado a quadros de ansiedade ou depressão após o regresso de férias. Caracteriza-se pela presença de alterações de humor, irritabilidade, falta de motivação, apatia, tristeza, dificuldades de concentração, stress, dores de cabeça e alterações do sono e apetite.

É sabido que precisamos de cerca de 3 dias para nos adaptarmos a novas rotinas e contextos. Apesar de regressarmos para o nosso trabalho ou escola, cujo contexto e rotinas conhecemos, o nosso corpo precisa desse tempo para se adaptar. Os sintomas da Síndrome Pós-Férias podem ser interpretados como um quadro de ansiedade devida a esta adaptação. A boa notícia é que podemos fazer algo para prevenir este quadro e fazer uma transição mais tranquila entre férias e trabalho/escola. Eis algumas sugestões:

  • Regressar de férias 2 ou 3 dias antes de voltar ao trabalho/escola
  • Já em casa, ir ajustando horários e rotinas (por ex: horas de refeições, deitar e acordar)
  • Preparar de véspera o que vai precisar no 1º dia, para evitar stress adicional
  • Quando chegar ao trabalho, informar-se sobre alterações que possam ter ocorrido durante a ausência, para se manter atualizado/a
  • Definir as tarefas prioritárias e ler apenas os e-mails mais urgentes
  • Não tentar resolver todos os pendentes no 1º dia
  • Focar-se no trabalho sem se dispersar com distrações como as Redes Sociais ou conversas com colegas
  • Manter atividades de lazer/desporto após o trabalho
  • Dividir as férias em vários períodos ao longo do ano, para ter mais momentos de pausa e descanso
  • Começar, ou continuar, a Prática Regular de Mindfulness para gerir o stress e a ansiedade
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Reflexões com uma dose de camomila

É chegado o momento para tomar uma boa dose de camomila.

Se não quiser tomar a infusão quente, pode tomá-la fria, que no Verão é muito agradável.

Escolha uma altura do dia em que não o/a interrompam e instale-se confortavelmente.

Faça algumas respirações profundas e dedique algum tempo a estas reflexões:

  • O que foi mais custoso nas férias: a viagem, a adaptação a um novo ambiente e a novas rotinas ou a convivência com a família?
  • Que conflitos ou diferenças de opinião foram mais difíceis de gerir?
  • Gostou do tempo que passou com a sua família ou teria preferido estar só?
  • No regresso de férias, o que custou mais: a viagem, a adaptação às rotinas ou o regresso a um local de trabalho que não gosta?

Pense durante algum tempo nestas questões, de forma honesta e objetiva.

Lanço-lhe agora o desafio de considerar estas sugestões:

  • Relembre as atitudes para ser Mindfull,
  • Aplique estas atitudes nos momentos em que está com a sua família, sobretudo aqueles em que há desacordo: ouça os seus argumentos com paciência, analise-os com curiosidade e, aceitando que para a outra pessoa esse argumento é uma verdade, seja compassivo nas suas palavras e nas suas ações.
  • Analise com abertura, sem julgamento e com desapego, o que sente em relação ao seu emprego: gosta? sente-se valorizado? acha-se capaz de o desempenhar bem? tem boas relações com os seus colegas? e com os seus superiores? sente-se “em casa” quando está no trabalho? Se não, como poderia alterar esta situação?
  • Será este um bom momento para empreender mudanças na sua vida?
  • Não se precipite. Estes assuntos carecem de uma reflexão mais ponderada. Tome mais uma boa dose de camomila, respire fundo e durma uma boa noite de sono. Então, se amanhã mantiver a intenção de fazer mudanças na sua vida, comece a planear como fazer.

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