A pandemia Covid-19 continua a trazer desafios em ritmo iô-iô: avança-recua, pode-não pode, confina-desconfina… Apesar da vacinação conferir alguma proteção contra os efeitos mais graves da doença, não garante imunidade total. Há uma (ainda) incalculada percentagem de pessoas infetadas assintomáticas e a mobilidade das populações é grande, permitindo a deslocação de milhares de kms em algumas horas. Acresce o surgimento de novas variantes, mais resistentes e de transmissão mais rápida e os comportamentos negligentes, associados a um alívio das medidas de prevenção há muito esperado. E cá vamos navegando, entre tempestades de números alarmantes e acalmias de números baixos. Como no mar.
Entretanto, a nossa saúde mental anda em frangalhos. Ansiedade, stress, paranoia, obsessões e compulsões, perturbações do humor, depressão…é o catálogo completo! Para ajudar à festa temos as preocupações com a estabilidade no emprego, pagar as contas ao fim do mês, a escola das crianças, o lar dos mais velhos. Não é para fracos, realmente! E se é verdade que é exatamente em momentos como este que descobrimos uma insuspeita reserva de força em nós, também é verdade que ninguém consegue manter-se neste estado de prontidão e resposta o tempo todo. Há um velho ditado que diz: “Enquanto o pau vai e volta folgam as costas”; as nossas costas precisam de folga, sem dúvida, para poderem aguentar-se por mais tempo nesta fustigação sem (ainda) um fim à vista.

E é aqui que o Mindfulness pode entrar. Se ainda não sabes bem o que isto é, posso dizer-te que é uma técnica trazida para o ocidente por um médico americano (John Kabat-Zinn) na década de ’70 e que se baseia em alguns princípios budistas, nomeadamente nas técnicas de respiração e alguns conceitos-base. Não tem qualquer pendor religioso; tem uma orientação secular (ligado às coisas concretas do mundo e da vida) mas com uma perspectiva nova em relação à forma ocidental de encarar a vida. Segundo Kabat-Zinn, a definição de Mindfulness é “prestar atenção, de forma intencional e sem julgamento, ao momento presente”. Por isso se traduz Mindfulness para “Atenção Plena”, “Presença Consciente”, “Consciência Plena” e outras derivações.
“Mindfulness é prestar atenção, de forma intencional e sem julgamento, ao momento presente” -John Kabat-Zinn
“Isto é tudo muito lindo, mas como raio é que se faz?” – até parece que te estou a ouvir. Bem, isto é muito simples de fazer…e muito complicado, na verdade. Tudo o que precisas é ter vontade de experimentar. Não é preciso roupa, nem posições estranhas, nem sítios específicos para o fazeres. Apenas algum treino. E resume-se, simplesmente, a prestar atenção a tudo o que está a acontecer no momento: a respiração, sons, estímulos visuais-tácteis-térmicos, sensações corporais, emoções, pensamentos…tudo! E o desafio é dar-se conta de tudo isto, não como um interveniente no processo, mas como um observador externo que está a ver um “filme”. Se for muito intenso apreender tanta coisa de uma só vez, podes focar a atenção apenas na respiração: as sensações do ar a entrar e a sair, o ritmo da respiração, como sentes o corpo enquanto respiras. Nem imaginas como pode ser reveladora esta consciência de estar, apenas, no aqui e agora. Sem pensar no passado ou no futuro. É o verdadeiro “folgar das costas” que muitas vezes nos faz falta. E assim conseguimos, no meio da tempestade, sentir alguma tranquilidade e serenidade.

Uma das grandes revelações da Atenção Plena é a de que tudo (mas mesmo TUDO) é passageiro. Mesmo o maior dos problemas acaba por ter uma resolução, seja ou não a nosso contento. Tudo é impermanente, sejam alegrias ou tristezas, sortes ou azares, abundância ou carência, tudo passa. E com Consciência Plena das inconstâncias da vida, atentos aos altos e baixos, cientes de que a cada cume irá sempre corresponder um vale, podemos encarar estas ondas de desânimo, frustração, medo, insegurança com outra atitude. Uma atitude de abertura e aceitação do que é, sabendo que tudo irá mudar e temos de nos adaptar a essa mudança. Aprender a surfar. Temos todos de aprender a manter o equilíbrio em cima da prancha, não cair, não resistir à onda mas aproveitar o seu impulso para que nos leve, sem fazermos esforço. Deixar que a onda nos direcione para um destino, aceitando ser levado para lá. Depois, em terra firme, corrigir a meta final se for preciso.
Quantas mudanças de carreira esta pandemia trouxe! Quantas alterações no modo de vida, nas prioridades, até nos valores! Foi preciso reequacionar os relacionamentos sociais, os padrões de comportamento na rua, na escola, no trabalho. Estamos a surfar a onda, novamente. E não podemos cair. Vamos tomar a nossa dose de camomila e manter o equilíbrio porque, daqui a nada, a onda passa e o mar ficará raso de novo…até à próxima onda…
