Discute-se agora em Portugal, mediante os números crescentes nas últimas semanas, se estaremos perante uma 4ª vaga da pandemia de Covid-19. Estas vagas, ou ondas, referem-se ao gráfico ascendente do número de casos positivos. Têm como consequência o aumento dos internamentos, aumento dos internamentos em cuidados intensivos e, também, o aumento do número de mortes. Através de medidas de contenção e de prevenção, impostas pelo governo e autoridades de saúde, os números começam a estabilizar (formando o “planalto”) e depois começam a baixar. Já por cá vimos este “filme” 3 vezes, e avizinha-se agora uma 4ª exibição…
Não me proponho fazer aqui uma análise epidemiológica, já que não é essa a minha especialidade. O meu ângulo de visão é o da Psicologia, nomeadamente a análise comportamental. Porque é com pessoas que estamos a lidar: as que propagam a doença sem ficarem doentes, as que ficam doentes, as que tratam das doentes e as que governam o país e têm de tomar decisões. Todas as decisões destas pessoas e todos os seus comportamentos vão ditar grande parte da evolução dos números da pandemia e, consequentemente, determinam a altura da onda.
Primeiro que tudo, é importante relembrar que esta doença é nova. Os cientistas e médicos têm ainda muito que compreender da sua dinâmica de transmissão, sintomas e efeitos na saúde humana. Mesmo já havendo vacinas, ainda não há certezas quanto à imunidade que estas podem conferir. Mesmo existindo milhões de pessoas convalescentes da doença, ninguém se atreve a dizer se adquiriram defesas consistentes contra a doença ou por quanto tempo. Estamos todos em estudo. Somos todos cobaias. E para nos proteger, temos somente medidas preventivas que não são nada agradáveis de seguir (relembrando: afastamento social, etiqueta respiratória, uso de máscara, desinfeção frequente das mãos, restringir saídas de casa e contactos com pessoas fora do agregado familiar…).
A Fadiga da Pandemia
Após 6 meses de aplicação destas e de outras medidas para contenção da epidemia, já as pessoas apresentavam um quadro a que se chamou “Fadiga da Pandemia”. Caracterizado por um elevado grau de stress, ansiedade, depressão, crises de pânico, saturação de ter de cumprir tantas restrições, carência de contacto social, confusão mental devida a uma excessiva exposição a notícias sobre a pandemia, perturbações do sono e apetite (entre outros), este estado preparou o terreno para aquilo que se viu a seguir, quando a curva finalmente baixou e as medidas de prevenção foram aligeiradas: uma retoma sôfrega dos antigos hábitos e costumes, como se quiséssemos recuperar tudo o que havíamos deixado de fazer durante o tempo de confinamento. Resultado: semeou-se a vaga seguinte! E aqui vamos nós, de onda em onda, qual montanha russa, até que a vacinação e um eventual medicamento que trate a doença ponham cobro a tantos internamentos e mortes e a doença se torne endémica, numa possível convivência mais ou menos prejudicial com a espécie humana.

Mas afinal qual é o nosso papel, como indivíduos que fazem parte de uma família, de um grupo de amigos, de uma turma, de uma equipa de trabalho, de uma cidade, de um país? Como peças de dominó dispostas em fila, basta que uma caia para todas as outras caírem, de seguida…mais tarde ou mais cedo. Basta aligeirar as medidas de prevenção para contrair a doença e depois, ainda sem sabermos que estamos infetados, a transmitirmos aos nossos – familiares, amigos, colegas, companheiros de viagem no transporte público… O discurso de culpabilização que ouvimos dos nossos governantes não funciona porque para quem ouve o “culpado” foi sempre o vizinho. É importante, diria até mesmo fulcral, que cada um de nós analise honestamente os seus comportamentos e verifique se realmente está a promover a sua segurança e a daqueles que ama.
Como nos podemos colocar em risco, sem dar conta disso
A máscara é incómoda de usar – concordo plenamente – mas ainda é uma barreira bastante eficaz que evita a transmissão do vírus SARS-CoV-2. Não está ninguém por perto e retiramos a máscara para respirar livremente durante um passeio no parque. Tocamos num banco ou corrimão (que por acaso está infetado) e logo de seguida levamos a mão à boca ou então esfregamos o olho. Daí a uns dias testamos positivo e não imaginamos como foi possível.
Estamos infetados sem sabermos, temos apenas uns sintomas ligeiros que ainda se confundem com uma constipação ou alergia. Ainda nem se pôs a hipótese de fazer um teste. De repente tossimos e pomos a mão à frente da boca. Nem nos lembramos de a limpar e já estamos a tocar no rosto do nosso filho ou a dar-lhe um beijo…
Suspeitámos que estamos doentes e fizémos um teste de farmácia. Deu resultado positivo. Mas não podemos faltar ao trabalho, o dinheiro faz falta e estamos por contrato a termo – se faltamos arriscamos a não renovar. E vamos trabalhar… Ou então, enquanto aguardamos o resultado do teste (que por acaso veio a revelar-se positivo), resolvemos ir de autocarro até ao Algarve, onde temos casa de férias, para fazer lá o isolamento de 14 dias…
Estamos a cumprir isolamento depois de ter testado positivo. Mas entretanto é o nosso aniversário e, claro, não podemos deixá-lo passar em branco! Por isso convidamos uns poucos amigos e vamos sair para comemorar. Mas é só hoje, depois voltamos ao isolamento…
Temos um teste marcado, pois o médico achou melhor fazê-lo, dados os sintomas. Aproveitamos a saída de casa e vamos ao supermercado, à padaria, ao café e ainda mais umas lojas porque não queremos que nos falte nada se for preciso fazer isolamento de 14 dias…
…Estes não são casos fictícios. Aconteceram. E ilustram bem como não estamos a levar a sério o problema da contenção da pandemia. Cada uma destas pessoas iniciou uma cadeia de contágio. Sempre sem intenção, é claro, mas também sem a mínima consciência das consequências das suas ações.
Somos um todo. Tudo o que fazemos afeta outros, de uma maneira ou de outra; mais cedo ou mais tarde; mais longe ou mais perto. Precisamos assumir plena responsabilidade pelas nossas ações e escolhas. Precisamos lembrar-nos do dominó: se nós formos a peça que se retira da fila, os outros depois de nós já não caem – nem nós!

Estas são as principais medidas de prevenção recomendadas pela DGS: garantir um afastamento de pelo menos 2m de outras pessoas, usar máscara (mesmo na rua), lavar/desinfetar frequentemente as mãos e arejar os espaços o mais possível. Está nas nossas mãos – literalmente – travar esta pandemia. Ao ficarmos em casa, não estamos a fazer nada, estamos a fazer muito! Na verdade, estamos a fazer tudo – estamos a retirar-nos das cadeias de contágio e a contribuir para a saúde de todos. Se também precisamos de sair? Claro que sim, mas com todos os cuidados, sem baixar a guarda, pelo bem de todos. Comemorações sim, mas fazendo um teste rápido antes, só para confirmar que estamos bem. Viagens, cinema, teatro, desporto…testar para evitar a transmissão da doença. O Certificado Digital Covid, que começou a ser emitido, não é garantia de imunidade. Nem a vacina! Nada nos garante, por enquanto, uma proteção completa, por isso todos os cuidados não são demais.
Tome uma boa dose de camomila e perceba que tem em si o poder de travar esta doença, aderindo às recomendações das Autoridades de Saúde, de forma voluntária e determinada, com a convicção de que, pelo menos pela sua parte, o elo não quebrará.
