Este não será certamente um texto fácil de escrever e presumo que também não será fácil de ler. Antes de começar a escrevê-lo quero deixar claro que não é minha intenção fazer julgamentos, mas acima de tudo lançar temas para reflexão e auto-análise. Na qualidade de mãe de dois adolescentes, posso afirmar categoricamente que já devo ter cometido quase todos os erros do catálogo e, portanto, sinto-me plenamente à vontade para identificar algumas das armadilhas em que os pais caem, muitas vezes sem dar bem por ela. O objetivo deste texto é trazer à consciência algumas práticas e atitudes parentais que podem minar irremediavelmente a relação pais-filhos ou gerar perturbações no desenvolvimento psicológico das crianças.
1- Filhos a quem são dados gadgets para que fiquem quietos
Desde a mais tenra idade, muitas vezes antes de começarem a falar, os bebés têm contacto com tablets, telemóveis e outros dispositivos eletrónicos com atividades que os mantêm “presos” a ecrãs, libertando assim os pais da tarefa de interagir com a criança. Uma das principais funções da interação pais-bebé é fortalecer a relação entre ambos através do toque, das vocalizações e das expressões faciais. É assim que o bebé começa a perceber a diferença entre toques/vocalizações/expressões faciais amigáveis das agressivas. E assim vai modelar também os seus toques, vocalizações e expressões faciais, ensaiando com o adulto diferentes formas de se expressar. Aos gadgets, falta esta interatividade e esta humanidade. Falta-lhes o toque. Falta-lhes o afeto.
Reflexão: Queremos mesmo, como pais, deixar para as tecnologias a importante missão de socialização do nosso filho? Estamos a criar um humano ou um andróide? Desvalorizamos assim tanto o tempo que podemos passar a fortalecer laços, mesmo que em situações menos agradáveis, com os nossos filhos? Será que não podemos transformar uma viagem longa, uma saída com amigos ou o momento das refeições em momentos de integração e não de exclusão?
2- Filhos a quem são dados medicamentos para dormir
Uma prática bastante usada, também com crianças mais pequenas, é usar alguns medicamentos, como anti-histamínicos, para garantir que a criança dorme a noite toda sem interrupções. Pais exaustos e sem outros apoios por vezes vêem nesta a única solução para garantirem um sono reparador. Mas existem outras soluções: a chamada “higiene do sono”, composta por vários passos ou rituais antes de ir dormir e que facilita o processo de adormecimento e garante um sono tranquilo até à manhã seguinte. Desde o banho, a retirada de ecrãs depois do jantar, ler uma história ou fazer uma pequena massagem antes de dormir (entre outros) são formas de criar um bom ambiente e uma boa relação que levam ao sono sereno.
Reflexão: Não estaremos a perder uma oportunidade de ouro para estabelecer laços, criar proximidade e fomentar a tranquilidade e segurança nos nossos filhos ao adormecê-los assim artificialmente? Os 20 ou 30 minutos que estaríamos a ler para eles não serviriam também para nos “carregar as baterias” com bons sentimentos e serenidade?
3- Filhos ignorados nas suas necessidades emocionais
Muitos pais acreditam que mimar, dar colo, abraçar e beijar os filhos os torna menos resilientes nas adversidades. Não admitem que os filhos chorem ou manifestem qualquer tipo de afecto, por não ser de “bom tom”. Homens e mulheres devem ser “rijos” e restringem manifestações emocionais ao mínimo indispensável: um esgar em vez de um sorriso; um aceno, em vez de um abraço; uns óculos escuros em vez de lágrimas sentidas. Muitas crianças são ensinadas a dominar as suas expressões emocionais em público e em família, tornando-se uma espécie de “autómatos controlados à distância” pelo olhar reprovador dos pais, sempre que incorrem no risco de prevaricar. O ser humano é um ser emocional e precisa manifestar essas emoções, sob pena de adoecer psicologicamente. Não há mal nenhum em chorar, tenha-se a idade que se tiver, ou rir, ou beijar, ou abraçar. Estreita relações e promove a conexão entre todos.
Reflexão: Será que não estamos a perpetuar modelos educativos herdados nos nossos pais? Será que nós próprios temos medo da proximidade e de perder o controlo das nossas emoções? Queremos filhos genuínos e espontâneos nas suas manifestações emocionais, ou pequenos humanos amestrados? Não será tempo também de nos permitirmos expressar emocionalmente?

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4- Filhos deixados entregues a si próprios
Acontece também frequentemente que filhos pequenos, alguns abaixo dos 10 anos, são deixados sozinhos em casa. Geralmente ocorre por breves períodos, quando um dos pais tem de ir buscar algo à rua. Outras vezes, é recorrente e mais demorado, quando os pais vão trabalhar, por exemplo. Ou porque não há capacidade financeira para pagar um ATL, ou porque essas soluções não existem, muitas crianças ficam entregues a si próprias durante parte do dia quando têm aulas ou durante o dia todo quando estão de férias, sendo que não raras vezes os mais velhos têm de cuidar dos mais novos. Embora seja recomendável que a partir dos 10 anos de idade se vão ensaiando com a criança alguns momentos sozinha em casa para fomentar a sua autonomia, deixá-la completamente entregue a si própria durante um dia inteiro ou todos os dias já será excessivo. À falta de capacidade financeira para pagar um ATL talvez fosse de pensar o apoio de vizinhos com alguma disponibilidade para prestar esta assistência.
Reflexão: Porque trabalho tanto: preciso mesmo deste dinheiro ou quero ter mais dinheiro para gastar em artigos de que realmente não preciso? Estarei a tentar compensar os meus filhos com presentes, pelo tempo que estou longe deles? Será possível reunir um grupo de mães/avós que se revezem no apoio ao filhos de outras mães/avós que têm de ir trabalhar?
5- Filhos usados como arma de arremesso nos divórcios
Caso paradigmático são os filhos instrumentalizados ou vitimizados em processos de divórcio para agredir o ex-cônjuge. É o fenómeno da “Alienação Parental”, já muito discutido e analisado. Por razões alheias ao bem-estar da criança, ela é usada pelos adultos como arma ou moeda de troca na altura de fazer partilhas de bens ou estabelecer regime de guarda. Só com 12 anos a sua voz é ouvida pelo tribunal e o seu “Superior Interesse” é muitas vezes atropelado. Vai com quem o juiz diz que vai e ponto!
Reflexão: O que é realmente mais importante para mim: ferir o meu ex ou proteger o meu filho? Quero vingança ou justiça? Que responsabilidade tenho perante o meu filho e o seu bem-estar? O que está ao meu alcance fazer para minimizar o impacto desta separação no meu filho?
6- Filhos excluídos nas famílias reconstruídas
Após o divórcio não raras vezes os pais voltam a casar ou a refazer a sua vida conjugal com outra pessoa que, por sua vez, também tem filhos da relação anterior. Forma-se então uma nova família com “os meus, os teus e os nossos” filhos – uma família reconstruída. E é aqui que tudo se complica: cada um dos cônjuges criou com os seus próprios filhos uma dinâmica parental própria, que pode colidir com a do outro cônjuge. Ao querer impôr as suas regras e dinâmicas parentais aos filhos do outro, pode desencadear reações de recusa e rejeição, gerando conflitos na relação dual e promovendo a exclusão dos filhos do(a) companheiro(a). É importante nestas situações salvaguardar e respeitar as dinâmicas já estabelecidas nas famílias anteriores, adequar e adaptar o que for possível promovendo a integração e a boa convivência na nova família.
Reflexão: Porque quero impôr ao filho do meu companheiro as regras que imponho ao meu? Porque me sinto responsável pelos comportamentos do filho do meu companheiro? Consigo aceitar que existem diferenças entre o meu estilo parental e o do meu companheiro? Consigo assumir uma papel de madrasta/padrasto sem procurar comparar-me à mãe/pai dos meus enteados? Consigo lidar com as limitações deste meu novo papel parental?
7- Filhos indesejados
Este é talvez o contexto mais difícil para se estabelecer uma relação parental. Quando o filho não foi desejado, não foi querido, não foi um projeto sequer equacionado, a sua chegada pode equivaler a um grande luto. Luto porque se perdeu o ideal de uma vida só a dois, porque se tem de assumir um papel parental que nunca se quis ter, porque se tem de re-equacionar o seu projeto de vida e até a sua identidade pessoal. Nestes casos, é realmente importante encarar de forma responsável a hipótese da adopção. Ou então, de forma também responsável, assumir a escolha pela não adopção e aceitar o novo papel sem recriminações.
Reflexão: Quero mesmo ter filhos? Terei medo de não ser capaz de ser bom pai/mãe? O que sinto estar a perder ao assumir o papel de pai/mãe? Será melhor fazer terapia para clarificar o que realmente quero?
8- Filhos que frustram as expectativas dos pais
Quando os filhos não correspondem à imagem “sonhada” ou idealizada pelos pais, frequentemente acontece um desapego, um “desligamento” emocional dos pais aos filhos, com aumento de distanciamento emocional e até físico. Os pais deixam de falar com os filhos, de até olhar para eles, de se preocupar com o seu bem-estar ou as suas necessidades… Pode começar logo após o nascimento, se o bebé apresentar défice motor, deficiência, atraso mental ou doença crónica grave, por exemplo. Com o aumentar da idade, pode ser porque o filho tem baixo rendimento escolar, consome substâncias, tem uma orientação LGBTQ, não quer seguir a profissão de família ou assume valores de vida diferentes. A família vive na mesma casa, mas não são um grupo familiar. São desconhecidos coabitantes.
Reflexão: Quis ter um filho para que fosse uma extensão de mim? O meu amor é condicional ou incondicional? É maior aquilo que nos une ou o que nos separa? Estas diferenças serão mesmo insanáveis? Deixei mesmo de amar o meu filho?
Foi realmente um texto difícil de escrever mas espero que contribua para boas reflexões e, se possível, para a tomada de consciência das muitas razões que nos levam ao afastamento dos nossos filhos. Recomendo a toma de uma boa dose de camomila, uma reflexão honesta e sincera e, se for necessário, um processo de terapia para se compreenderem melhor a vós próprios e aos outros. A bem de todos.
