Foi notícia em Portugal recentemente um chocante caso de bullying que, por pura sorte, não terminou em tragédia. O vídeo publicado nas Redes Sociais mostra como um grupo de adolescentes age com maldade, agredindo física e verbalmente um colega à saída da escola. As idades de agressores e vítima rondam os 13 anos. Todo o acontecimento foi gravado com telemóvel e apesar de se ouvir uma voz a avisar que aquele comportamento era bullying, as adolescentes agressoras continuaram com as ameaças e agressões, terminando no atropelamento do aluno quando este fugiu para a estrada, na tentativa de evitar ser novamente agredido.
Como é possível alguém achar-se no direito de humilhar e agredir outra pessoa só porque sim? Como é possível sentir-se impune numa situação destas? Como é possível não sentir empatia pelo outro? Como é possível observar, filmar, testemunhar agressões e não fazer nada para lhes pôr fim? Como é possível, após o atropelamento, não chamar ajuda?
Que futuros adultos estamos a criar? O que nos trouxe até aqui?
Vários autores apontam a falta de regras e limites na infância como geradora de comportamentos desafiadores da autoridade e desrespeitadores dos direitos dos outros. A criança que não é contrariada nos seus quereres torna-se auto-centrada, assumindo como prioridade absoluta as suas necessidades, sem ter em conta as dos outros. Não conhece a frustração, a superação de dificuldades, a generosidade, a gratidão, a partilha, a solidariedade e a empatia. O mundo gira sobre si própria e os seus desejos. Muitas vezes nem tem tempo de sequer desejar, pois tudo lhe é oferecido antes de ter sentido a ânsia disso. Tudo lhe é permitido. Tudo lhe é concedido. Tudo lhe é tolerado.
É quando os pais se tornam reféns destes pequenos ditadores, temendo que ao criar qualquer contrariedade ao pequeno soberano este volte a sua raiva contra eles e “deixe de os amar”. Pais com medo dos filhos. Em menos de duas gerações, passámos do paradigma do Pai Tirano para o do Filho Tirano. A Psicologia e a difusão de alguns conceitos ligados ao trauma infantil foram mal interpretados e são grandemente responsáveis pela falsa ideia de que não se deve disciplinar as crianças pois isso pode causar-lhe traumas muito graves. Vamos ser muito claros: espancar uma criança não é disciplinar, é torturar. Disciplinar pressupõe primeiro que tudo a clarificação de regras e limites; o que é permitido e o que não é aceitável na convivência familiar e nos espaços de convivência com outros. Disciplinar é impôr consequências, que muitas vezes decorrem naturalmente da “infração” cometida (por exemplo: chega tarde à mesa de refeição e a comida está fria ou já não tem aquela parte que mais gosta, pois a restante família começou a refeição à hora habitual). É o chamado “temos pena”…chegasses a horas!

As crianças sem regras nem limites, a quem tudo é permitido e tolerado, fazem grandes birras sempre que se deparam com um “Não” ou com qualquer contrariedade. Habituam-se a que o adulto ceda, perante as suas manifestações de desagrado e verbalizações do tipo “já não gosto mais de ti”. Aprendem que com as suas ameaças, conseguem tudo o que querem. Aprendem que a vontade do outro é ultrapassável e manipulável. Estes filhos crescem, vão à escola, tratam mal professores, funcionários e colegas, impõem a sua vontade a todos. Julgam-se omnipotentes. Só sofrendo as justas consequências dos seus comportamentos poderão perceber as regras e limites que nunca lhes foram impostos. Só assumindo sentida responsabilidade pelos seus actos poderão trazer alguma reparação ao dano causado na pessoa agredida.
Sim, os agressores também precisam de terapia!
É fácil sentir solidariedade e empatia pelas vítimas, perceber que precisam de apoio psicológico para ultrapassar o sucedido, talvez uma intervenção ao nível do desenvolvimento de capacidades assertivas e até de defesa pessoal. E os agressores? Chegará apenas a punição do acto para que tudo fique resolvido? Será que isso basta para “aprender a lição”? Na grande maioria dos casos não. É preciso mais. Porque, por muito que nos custe assimilar esta ideia, o agressor também é uma vítima; a pessoa que é foi “moldada” por uma educação manca, pouco assertiva, que gerou uma criaturinha prepotente que não sabe viver em sociedade. A falta de limites estruturantes criou uma sensação de falta de contenção (nos comportamentos e nas emoções) que é perturbadora do desenvolvimento psicológico. E por isso é necessária terapia também para o agressor. Trabalhar conceitos como os direitos dos outros, comportamentos aceitáveis e inaceitáveis em diferentes contextos, educação emocional (para poder distinguir diferentes emoções e como lidar com elas), controlo de impulsos, gestão da frustração (que muitas vezes estimula a criatividade!), cultivar atitudes de cooperação, entreajuda, integração, solidariedade, empatia. Demarcar claramente os limites da sua expressão emocional e comportamental permite-lhes uma sensação de controlo sobre si próprios, maior segurança e por consequência, maior tranquilidade nas relações sociais. Só com terapia intensiva e bem dirigida estes futuros adultos poderão consertar um coração que nunca conheceu a bondade.
Aos pais que presentemente se debatem com birras monumentais dos seus pequenos rebentos, aconselho uma boa dose de camomila, que podem preparar segundo as instruções do artigo Queres acalmar?, tendo plena consciência de que não estão a fazer nada de errado ao manterem-se firmes na sua posição. Quando a criaturinha acalmar, podem também partilhar a vossa infusão de camomila com ela. Só vai ajudar.
