Quem tem (ou teve) adolescentes em casa sabe bem como é viver em constante estado de alerta e prontidão, sujeito a ser bombardeado por maus humores, explosões emocionais, respostas tortas, decisões intempestivas, indecisões massacrantes e outros tipos de requintada tortura psicológica. Eles, como ninguém, testam a paciência dos pais ao limite, conseguem fazer rezar até o mais laico dos progenitores, antecipam em anos a chegada dos cabelos brancos, fazendo com que os pais de adolescentes pareçam jovens avós cansados e esgotados psicologicamente.
“Tenho em mim todos os sonhos do mundo” – Fernando Pessoa
Sim, eles são tudo isso. Mas são ainda mais! Os adolescentes contêm em si “todos os sonhos do mundo”, todo um potencial que espera por ser realizado; uma enorme semente de criatividade e engenho que, se não for afogada por uma educação redutora e limitante, domadora de sonhos, poderá brotar em ideias progressistas e visionárias. O adolescente é como um diamante em bruto: grotesco e baço à primeira vista mas podendo transformar-se numa jóia valiosíssima se for bem trabalhado. E que é isso de “bem trabalhado”? É ser orientado para o pleno desenvolvimento do seu potencial, sem o barrar com preconceitos referentes às profissões “adequadas” a cada género, sem lhe dizer que “esse talento não te servirá para pôr comida na mesa” ou que “tens é de seguir a tradição da família”.
A adolescência é a fase de transição da infância para a adultícia, a passagem do estado da proteção e orientação parental para o estado da independência e responsabilidade individual. Não é fácil. Durante aquele tempo, o jovem tem de conciliar o respeito pelas regras dos pais com a sua necessidade de construir novas regras, mais congruentes com os seus valores pessoais. Vai procurar o seu lugar no mundo e a sua verdadeira identidade distanciando-se das orientações parentais, testando novas aparências (cor e corte de cabelo, roupas, adereços) e novos hábitos (horários de refeições e dormir, saídas à noite, tipo de alimentação). Vai procurar a sua “tribo” experimentando grupos de amigos e vai fazendo as primeiras incursões no mundo das relações amorosas com experiências sexuais. Pelo meio, pode ainda procurar emoções mais fortes, aderindo ao apelo para consumir substâncias estupefacientes ou para testar a sua coragem e espírito indómito em comportamentos de risco (condução a alta velocidade e acrobacias perigosas, por exemplo).
E os pais, ficam sentados a ver???
Os pais devem continuar a ser o exemplo de conduta, transmitir e consolidar valores de vida, estabelecer regras e limites, conter as crises emocionais e transmitir segurança…tudo isto como se não estivessem a fazer nada disto, porque se o adolescente perceber que está a ser “socializado”, “educado” ou até “domesticado” entorna-se o caldo… Entretanto, podem sempre ir pintando as brancas que vão surgindo, para manterem uma aparência mais conforme com a sua idade cronológica. A verdade é que, para os pais, equilibrar e dosear limitações e liberdades, nesta fase de luta pela emancipação, é terrivelmente desgastante. Os adolescentes propõem novas formas de fazer as coisas, novas visões da realidade, que colidem frontalmente com os “dogmas” instituídos dos pais. Geram-se conflitos internos e externos; abrem-se precipícios nas relações pais-filhos.
Muitas vezes os pais cedem, numa tentativa de apaziguar os ânimos e manter uma paz aparente. Escusado será dizer que é uma falsa paz. O turbilhão continua e a todo o momento se poderá dar uma erupção de grandes proporções, com ruturas insanáveis. E deixam-se de falar, pais e filhos, para o resto da vida. Será melhor ir gerindo pequenos abalos sísmicos, ainda que recorrentes, do que esperar a grande erupção.
Outra abordagem frequente dos pais é tentarem acompanhar o adolescente nas suas saídas, redes sociais, modo de vestir, música que ouve, como se quisessem assumir um papel de “amigo/companheiro” em vez do papel parental. Escusado será dizer que é uma falsa relação de amizade. Os pais devem cultivar uma relação próxima com os filhos, mantendo canais de comunicação abertos mas sabendo gerir distâncias: o adolescente precisa de alguma privacidade e precisa de ter os seus segredos. À parte, obviamente, a necessária supervisão para evitar que corra riscos de abuso por parte de pessoas mal intencionadas, o adolescente precisa de um espaço só seu, tempo só seu …. e amigos só seus. Sem pais de arrasto. Quando os pais se tornam os “melhores amigos” dos filhos, os filhos tornam-se orfãos, ficam sem pais. Amigos há muitos, pais só aqueles. E quando os pais deliberadamente abdicam do seu importante papel parental para assumir um falso papel de par, os filhos ficam sem farol. Porque é esse, afinal, o maior privilégio dos pais: saber que são o farol e o porto seguro dos seus filhos. De resto, é deixá-los navegar para se fazerem bons marinheiros.
Aos pais, recomendo uma boa dose de camomila (duas vezes ao dia, se necessário!) e a leitura dos seguintes livros:
- “Educar com Mindfulness na Adolescência”, Mikaela Ovén (2019) Porto Editora
- “Ama-me quando menos mereço porque é quando mais preciso”, Jaune Funes (2019), Planeta
