Os Alunos Invisíveis

Já todos conhecemos a experiência de ser aluno. Sabemos bem que existem alunos que se destacam dos outros, quer pelo seu aspeto físico, quer pelo seu comportamento, quer pela sua capacidade intelectual. Há os que são amigos de todos, bastante sociáveis e simpáticos, e há os mais quezilentos e desordeiros, sempre a fomentar conflitos; há os que ajudam os colegas, disponibilizando os apontamentos das aulas e há os que guardam ciosamente toda a informação relevante para terem vantagem nas avaliações.

…E há os outros. Aqueles que não são notados, cuja presença não é reconhecida, cuja voz está sempre apagada. Quase ninguém sabe o seu nome ou seja o que for sobre eles. Circulam por entre os colegas sem ninguém os cumprimentar ou reparar que estão ali. Fundem-se com a turma, no todo, sem nunca evidenciarem a sua individualidade. São os alunos invisíveis, que por vezes não têm falta às aulas simplesmente porque o professor nem reparou na sua ausência. Quem de nós nunca ouviu numa aula o professor exclamar: “Ah, estavas aí? Nem tinha dado conta!”

Estes são os alunos perfeitos. Não perturbam a aula, não desobedecem ao professor, não fazem perguntas desconfortáveis. Vão tendo aproveitamento nas avaliações e, por isso, continuam “abaixo do radar”, sem dar razões para recados na caderneta ou menções especiais nos Conselhos de Turma. Sem problemas de comportamento dentro e fora da sala de aula são, na verdade, os alunos que os professores pediram a deus: não dão trabalho nem chatices. O psicólogo escolar nunca ouviu falar deles. Para a Direção da escola, são apenas um número.

Um sofrimento silencioso

Mas são, exatamente estes alunos, aqueles a quem a escola mais deveria votar a sua atenção. Porque podem ser autênticas “bombas-relógio”, prestes a explodir ou implodir! Explodir em assomos de raiva e violência, extremamente destrutivos, vingando-se dos maus tratos ou injustiça que sentem terem-lhes sido feitos. São os famigerados casos de alunos que, de repente e sem aviso, levam armas para a escola decididos a fazerem o maior número de vítimas possível. Mas podem também implodir: desenvolvendo doença mental, como por exemplo a Depressão, que os consumirá até ao resto das suas vidas caso não tenham a ajuda psicológica necessária em devido tempo.

Como chegaram até aqui?

O que está na origem deste fenómeno de “camuflagem social” pode ser uma predisposição de base (crianças e jovens tímidos por natureza, ou muito retraídos, muito inseguros e pouco assertivos) ou pode ter sido resultado de experiências de vida traumáticas (violência doméstica, práticas parentais abusivas, situações críticas em que a sua vida tenha estado em perigo). Estes alunos “fecham-se na sua concha” e raramente permitem que outros se aproximem deles. Evitam o contacto social, auto excluem-se dos grupos na escola, dificilmente fazem amigos. Na verdade, não são anti-sociais; apenas temem a proximidade porque se sentem muito vulneráveis. O evitamento social é uma defesa, mais do que uma escolha livre. O seu sofrimento não se pode exprimir em palavras. Queima-os por dentro até atingir o ponto de rutura. E a gota de água pode ser um insulto, uma avaliação escolar negativa, um olhar de desprezo. Uma ausência à aula que não foi notada por ninguém…

A esta altura podes estar a pensar que isto nunca se passou contigo; que nunca tiveste ninguém na turma assim. Quantos alunos viste na foto de abertura deste artigo? Três? Vê melhor: são quatro! Sim, o aluno invisível também lá está! E sabes que mais? Pode ser o teu grande amigo para a vida, se te dispuseres a dar-lhe atenção, a falar com ele e a ouvi-lo. Podes descobrir que sabe imensas coisas sobre temas que te interessam também. Podes ensinar-lhe o que sabes. Recomendo que tomes uma boa dose de camomila, abras a tua atenção a tudo o que te rodeia, principalmente às pessoas “invisíveis” que se cruzam contigo todos os dias e que tomes consciência de que existem corações sensíveis como o teu simplesmente à espera de uma aproximação sincera e desinteressada para começar uma amizade para a vida toda.

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