Eu gosto de estar confinado! Serei normal?

O ano de 2020 trouxe a todo o mundo uma nova realidade. Quando em Março a ONU decretou o novo coronavírus uma pandemia, poucos perceberam o que isso implicaria. As mudanças começaram pela recomendação do uso de máscara (e todos achámos muito estranho); depois a constante desinfeção das mãos, o evitar tocar nas superfícies, a etiqueta respiratória. Só depois percebemos o que era o afastamento social e o isolamento profilático. E então veio o confinamento.

Após algumas semanas, já eram muitos os pedidos de ajuda nas instituições médicas e sociais por causa do aumento dos casos de ansiedade, stress, depressão, dependências e violência doméstica. Os alunos em ensino à distância não aprendiam como antes; os pais em teletrabalho tinham muitas dificuldades em gerir tempos de trabalho e família com os filhos em casa. Os idosos em lares sentiam a falta das visitas da família. As saudades apertavam para todos.

Mas…houve uma outra versão do confinamento

“Primeiro estranha-se e depois entranha-se” disse Fernando Pessoa acerca de um refrigerante, e aconteceu o mesmo com o confinamento a muitas pessoas. Não só não lhes gerou stress, como foi uma das melhores experiências da sua vida. Pela primeira vez, podiam ir trabalhar de pijama, logo após acordar; ganharam tempo roubado pelos transportes públicos; ganharam serenidade por não terem de alinhar nas correrias do trânsito, ou das filas, ou dos pequenos atritos com colegas de trabalho. Finda a jornada, era só desligar o computador e apreciar todo o tempo livre à disposição. Para estas pessoas, não poderia haver maior tranquilidade do que esta.

O confinamento pode ser um momento de auto-descoberta e desenvolvimento pessoal. Muitas pessoas, na tentativa de ocuparem o tempo livre que agora tinham em maior quantidade, começaram por explorar novos e antigos interesses, descobriram hobbies, permitiram-se fazer pausas e olhar mais para si e para as suas vidas. Redescobriram-se. Perceberam de não há nada de errado em se priorizarem, em se cuidarem, em se mimarem. Aprenderam a valorizar as pequenas coisas – que antes nem sequer notavam – e a olhar para si e para o mundo de outra forma.

Mas nem todos os processos foram pacíficos. Houve quem passasse por grande sofrimento, que os levou depois à transformação. Desta forma muitos descobriram as maravilhas que o Mindfulness, ou Atenção Plena, lhes pode revelar. Outros fizeram uma caminhada de descoberta espiritual. Aprenderam a estar consigo próprios, sem precisar de estar com outros, e isso foi tremendamente revelador. Começaram a perceber que a solidão já não atemoriza – antes tranquiliza – e que o convívio social, sobretudo aquele que é imposto pela atividade profissional, é muito desgastante.

“A solidão é viciante. Quando você se dá conta da paz que existe nela, não quer mais lidar com pessoas” – Carl Jung

É preciso escolher, com consciência, as relações sociais mais salutares, que nos preenchem e fazem crescer. Relativizar todo o stress gerado por relações impostas e inevitáveis, lidando com elas de forma mais atenta e alerta. E perceber que não querer estar com pessoas também é um direito nosso. Não somos anti-sociais, somos pró-individuais, e isso faz toda a diferença para o nosso bem-estar emocional e psicológico.

Então, serenamente, tranquilamente, conscientemente, vamos tomar uma boa dose de camomila, apreciando o sabor da nossa solidão, ouvindo o silêncio ou o ruído do ambiente, saboreando sem culpa este privilégio de poder saber que se está bem assim, sem mais nada.

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