
Vivemos tempos deveras estranhos. Nós, habituados a ver os outros por completo, temos agora uma versão censurada das suas expressões faciais, sorrisos tapados por máscaras, deixando apenas os olhos como único espelho da alma. E isto se não houver ainda uns óculos escuros a tapá-los!
Na verdade, todo o nosso corpo comunica: para além daquilo que dizemos, a nossa postura corporal, os gestos que fazemos com as mãos, a entoação da voz e, claro, as expressões faciais conferem ao nosso discurso uma grande riqueza e expressividade. Toda esta linguagem não-verbal reforça ou desmente o que é dito verbalmente. Na área da Psicologia Forense, por exemplo, existe um campo de investigação de Veracidade do Testemunho que aplica a análise das micro-expressões faciais e linguagem corporal para validar ou invalidar o que é dito.
Agora, com a maior parte do rosto tapada por esta máscara que nos protege duma pandemia, ficamos sujeitos a outro “vírus”: o do isolamento emocional. Porque os sorrisos e as expressões também serviam para nos acarinhar, para nos aconchegar, para nos aproximar. Ao olhar para o rosto da outra pessoa, sabíamos se a nossa presença era bem-vinda, se a nossa história colhia interesse ou se nós próprios éramos aceites. Como é diferente falar para alguém com e sem a máscara!
Ironicamente, o tempo que passámos confinados, em teletrabalho ou aulas à distância, permitia-nos ver os rostos e as expressões dos outros. Agora, na rua, frente a frente, temos a sensação de falar para desconhecidos ou, pior, para amigos pouco amigáveis. Mas, afinal, quão bem conhecemos os nossos amigos? Conhecemos os seus gestos habituais, a sua forma de andar, os seus trejeitos? Conseguimos notar quando os seus olhos estão tristes ou alegres? Sabemos reconhecer quando nos escondem a verdade?
Vivemos tempos deveras estranhos, sem dúvida, mas podemos aproveitá-los para conhecer melhor quem nos está mais próximo. Será que alguma vez reparámos verdadeiramente neles? Pois agora temos a oportunidade! Vamos convidar essas pessoas para partilhar uma boa dose de camomila, conversar e notar todos os pormenores que até hoje nos passaram tão despercebidos.
E aprender a sorrir com os olhos.
